REQUALIFICAÇÃO DO IATE TÊNIS CLUBE

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Sobre

JK e a Pampulha

Lagoa da Pampulha

O ensaio modernista


Após concluir finalmente a Avenida do Contorno, asfaltar a Afonso Pena e cortar Belo Horizonte com novas avenidas radiais, o prefeito Juscelino Kubitschek confirmaria mais uma vez, em 16 de maio de 1943, o apelido carinhoso de Prefeito Furacão, que recebera dos belo-horizontinos, ao inaugurar em grande estilo o Conjunto Moderno da Pampulha, hoje Patrimônio Mundial reconhecido pela UNESCO.

JK no Iate Naquele domingo ensolarado, Juscelino, acompanhado do presidente Getúlio Vargas, pilotaria uma lancha pela lagoa que criara, mostrando orgulhosamente ao ilustre passageiro a genialidade dos traços da Igreja São Francisco de Assis, do Iate Golf Club, do Cassino - atual Museu de Arte - e da Casa de Baile projetados pelo arquiteto Oscar Niemeyer, a leveza dos jardins criados pelo paisagista Roberto Burle Marx e o inusitado das cores e formas dos painéis pintados por Cândido Portinari e das esculturas elaboradas por Alfredo Ceschiatti.

Mas a festa não seria completa. O bispo de Belo Horizonte, Dom Antônio dos Santos Cabral, proibira a celebração de cultos na igrejinha, alegando que uma Casa de Deus não poderia integrar um conjunto arquitetônico ao lado de um cassino e de uma casa de baile. O bispo se indignara também com o painel pintado por Portinari para o altar, substituindo o lobo que sempre acompanha as imagens de São Francisco, por um cão vira-latas. Apenas 17 anos depois, quando JK governava o Brasil, o icônico templo seria finalmente consagrado e aberto ao público.

Na verdade, a polêmica quanto à igrejinha - e ao complexo da Pampulha - revelava o desconforto da tradicional sociedade mineira com os arrojos modernizadores do prefeito. Com as suas largas faixas, a autopista - a Avenida Antônio Carlos - que liga a Pampulha ao centro, de 11,8 kms de extensão, chocara pela grandiosidade, em um tempo em que ainda eram poucos os automóveis em circulação na capital.

Complexo arquitetônico da Pampulha

O entrosamento de JK com escritores, intelectuais, arquitetos e artistas modernistas também não agradava a muitos. Em maio de 1944, por exemplo, durante a Semana de Arte Moderna promovida pela Prefeitura de Belo Horizonte, a exposição da tela “O Galo”, de Portinari, atraiu a fúria dos conservadores, embalada pelas duras críticas dos participantes da Semaninha ao conservadorismo mineiro, e pela convocação do poeta modernista Oswald de Andrade, para que Minas trocasse a serenata pela metralhadora.

Seja como for, fato é que o Conjunto Moderno da Pampulha logo tornou-se marco da história de Belo Horizonte e da arquitetura mundial. Um ensaio modernista, que o Prefeito Furacão fez frutificar em outras realizações surpreendentes quando governou Minas (1951/1955) e presidiu o Brasil (1956/1961), entre as quais destacou-se a sua obra-síntese, Brasília, a nova capital do País, inaugurada por ele em 21 de abril de 1960.

O Iate

Asa de borboleta


Salão principal do Iate

Se a Igreja de São Francisco, a Casa de Baile e o Museu de Arte encantaram pelas formas curvas e ondulantes - aliás, marcas registradas do arquiteto Oscar Niemeyer -, o Iate Golf Club, hoje Iate Tênis Clube, surpreendeu pelas linhas duras e retas da sua sede social, que adorna a orla da lagoa como um grande barco prestes a navegar, e de cujo convés superior, composto por um salão e um terraço, avista-se a magnífica paisagem da Pampulha e do conjunto arquitetônico. A surpresa ficaria ainda por conta do telhado com inclinação em “V”, chamado de asa de borboleta - outra solução tipicamente modernista projetada por Niemeyer.

Dividido em dois ambientes por uma concha acústica no projeto original, o grande salão do segundo pavimento é predominantemente envidraçado e conta com brises metálicos na lateral esquerda ao Oeste, para a proteção dos raios de sol. O ambiente principal, adornado com o painel “O Espantalho”, de Cândido Portinari, e a têmpera sobre tela “O Esporte”, de Burle Marx, foi projetado pelo arquiteto para abrigar um restaurante, enquanto que o segundo ambiente como um salão de dança, que se conectava ao terraço - a proa do barco - e à paisagem da Pampulha.

Salão principal do Iate

Piscina Já no pavimento térreo, em meio aos jardins de Burle Marx, piscinas e quadras, havia áreas próprias para usos náuticos, que embalaram o projeto acalentado por JK desde a sua posse como prefeito de Belo Horizonte em 1940, de construir a lagoa e o próprio clube.

Propriedade da Prefeitura, o Iate foi leiloado em 1960, passando a constituir-se como uma associação civil com fins não econômicos, voltada para a prática de esportes terrestres e aquáticos e para a promoção de atividades sociais, artísticas e culturais. Bem histórico/cultural tombado de Belo Horizonte, de Minas Gerais e do Brasil, o clube é Patrimônio Mundial desde 2016.

Saiba mais sobre o clube em iatebh.com.br

Patrimônio Mundial

O MAP visto do Iate

Pampulha: obra-prima da genialidade humana


O valor universal excepcional como “obra-prima da genialidade humana” e expressão de intenso “intercâmbio de conhecimentos da arquitetura, das artes monumentais, do planejamento urbano e do desenho da paisagem”, que ilustram um “estágio significativo da história humana” - no caso, o alvorecer do Modernismo na arquitetura no Brasil -, foram os três critérios que levaram a assembleia dos países signatários da Convenção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural da UNESCO, realizada em Istambul, na Turquia, em 2016, a aprovar a inscrição do Conjunto Moderno da Pampulha na Lista do Patrimônio Mundial.

Vista da lagoa e piscina Décimo terceiro bem cultural do Brasil reconhecido pela UNESCO – atualmente são 16 – e quarto de Minas Gerais, o Conjunto Moderno da Pampulha compreende a Igreja de São Francisco de Assis, a Casa de Baile, o Museu de Arte e o Iate Tênis Clube, além do espelho d’água e da orla da lagoa, que conformam a paisagem cultural do complexo arquitetônico.

Detalhe “O conjunto como um todo pode ser visto como suficientemente intacto. Os quatro edifícios ainda mantêm uma boa relação entre si, com a lagoa para a qual estão voltados, e com o bairro cidade-jardim na parte posterior”, ressaltou a UNESCO no relatório da inscrição da Pampulha.

Apesar da integridade satisfatória, a organização ressaltou a necessidade da recuperação de jardins implantados por Burle Max no entorno da igrejinha e do Iate, e da mitigação de impactos causados pelos estádios do Mineirão e do Mineirinho e pela poluição da lagoa; o que é fundamental para restaurar a autenticidade da paisagem cultural do Conjunto Moderno da Pampulha.

Além disso, a UNESCO destacaria no seu relatório, a urgência da restauração do projeto original do Iate Tênis Clube, desvirtuado “particularmente pelos edifícios adicionados, pelas divisórias internas inseridas e pela remoção de alguns dos seus elementos decorativos”, entre outras descaracterizações.

Saiba mais sobre a inscrição da Pampulha em whc.unesco.org/en/list/1493/

O Projeto

Nos compassos da requalificação do Iate


Vista aérea do novo Iate
Vista aérea do novo Iate

A proposta de requalificação do Iate Tênis Clube - já aprovada pelos três órgãos de preservação, federal, estadual e municipal, e também pela UNESCO - tem como objetivo estratégico requalificar a sua paisagem cultural, removendo edificações posteriores e indesejáveis, bem como imagens estéticas que degradaram a sua visibilidade. Com esta perspectiva, atende-se às recomendações da UNESCO que, ao aprovar a inscrição do Conjunto Moderno da Pampulha em 2016, condicionou a sua permanência na Lista do Patrimônio Mundial ao tratamento adequado da arquitetura do clube e dos seus jardins, entre outras medidas.

Vista da rua do novo Iate
Vista da rua do novo Iate

Portanto, o que se pretende por meio desta proposta, elaborada pela Tempo Plural, é construir uma solução definitiva de requalificação do clube, resgatando o seu projeto original e a paisagem cultural protegida, em consonância com o aprimoramento do seu funcionamento sócio esportivo.

Eis os princípios e as diretrizes gerais que norteiam a proposta de requalificação do Iate Tênis Clube:

Princípios

  • Recuperação da paisagem da Pampulha, retirando as agressões causadas pelos anexos do Iate;
  • Recuperação dos espaços públicos e vistas/visadas para o clube e desde o clube;
  • Manutenção das construções existentes que possam resultar harmônicas com a paisagem e acréscimo de outras que sejam necessárias ao funcionamento do clube de maneira também harmônica com as exigências patrimoniais;
  • Qualificação da paisagem interna e ambiências do clube;
  • Recuperação da orla da Avenida Otacílio Negrão de Lima em seu encontro com o clube e no encontro deste com o lago.

Diretrizes

  • Restaurar o edifício do Salão Portinari e os jardins de Burle Marx na lateral direita;
  • Recuperar os espaços públicos nas duas extremidades do clube, utilizando-os como praças abertas e mirantes;
  • Manter o nível térreo do “anexo”, que se situa abaixo do nível da Avenida Otacílio Negrão de Lima, adaptando-o para novas instalações cobertas do clube;
  • Tratar a fachada remanescente do “anexo” para a lagoa com a percepção e leitura de platô, e não do edifício;
  • Recuperar paisagisticamente a continuidade e a estabilidade da orla da lagoa em seu encontro com o clube, com jardins, espécimes arbóreos e enrocamento;
  • Resolver com a transparência possível, o alinhamento do clube com a avenida, respeitando a necessária privacidade interna;
  • Implementar uma proposta paisagística para o clube como um todo, valorizando os eixos longitudinais lindeiros à avenida e ao lago como áreas de circulação interna, concentrando as quadras no centro;
  • Retirar todos os elementos espúrios construídos posteriormente;
  • Elaborar de projeto para lotes lindeiros ao clube, localizados na Avenida Otacílio Negrão de Lima, contemplando a construção de áreas de uso comum e de equipamentos culturais, além de estacionamento.

Equipe

Cláudio Arroyo CLÁUDIO ARROYO
Arquiteto e Urbanista formado pela PUC Minas, participou de intercâmbio universitário em Valência - Espanha, com ênfase em Patrimônio Cultural e cursou especialização em Construção Civil na UFMG. Elabora projetos executivos específicos para restauração de edificações tombadas desde 2017, tendo desenvolvido diversos projetos para particulares e para órgãos públicos em todo Brasil. Coordenou, também, a realização de projetos, obras e ações de educação patrimonial em imóveis culturais protegidos.

Fernanda Ghirotto FERNANDA GHIROTTO
Arquiteta e Urbanista formada pela PUC Minas e Mestre em Preservação do Patrimônio Cultural, possui ampla experiência profissional na área de patrimônio cultural, desenvolvendo projetos para particulares e obras públicas, tendo trabalhado em órgãos de proteção do patrimônio como IEPHA/MG e IPHAN. Atuou também como conselheira no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte (CDPCM-BH), representando o IEPHA/MG.

Flávio Carsalade FLÁVIO LEMOS CARSALADE
Arquiteto pela Escola de Arquitetura da UFMG, Mestre em Arquitetura pela UFMG, Doutor em Arquitetura pela UFBA, Pós-Doutorado na Università degli Studie di Firenze, e Professor da Escola de Arquitetura da UFMG, sendo seu diretor entre 2008-2012. Presidente do IAB/MG (1996/1997 e 1998/1999), do IEPHA/MG (1999 a 2002), Secretário Municipal de Administração Regional Pampulha (2003 a 2007) e Diretor da Editora UFMG (2015-2024). Atualmente, é presidente do ICOMOS Brasil e atua nas atividades de restauração do Museu da Moda, da Praça Floriano Peixoto e do Automóvel Clube de Belo Horizonte, entre outros, sendo ainda membro do Conselho Curador do IPHAN, do Conselho Estadual de Patrimônio Cultural de Minas Gerais e do CDPCM-BH.

Michele Arroyo MICHELE ARROYO
Graduada em História pela UFMG, com Mestrado e Doutorado em Ciências Sociais pela PUC Minas. Tem experiência na área de História, com ênfase em História das Cidades e História da Arte, atuando nos seguintes temas: patrimônio cultural, políticas públicas de proteção, reabilitação urbana, cidade educativa e educação para o patrimônio cultural. Coordenou de 1999 a 2012 a Diretoria de Patrimônio Cultural/FMC da Prefeitura de Belo Horizonte. Atuou como Superintendente do IPHAN em Minas Gerais de 2013 a 2015 e como Presidente do IEPHA-MG de 2015 a 2021.

Parceria
Público/Privada

Um projeto de tal magnitude, como o da Requalificação da Paisagem Cultural do Iate Tênis Clube, requer parcerias público/privadas para a sua viabilização. Por esta razão, o projeto lastreia-se na Lei Federal de Incentivo à Cultura e demais leis de incentivo, confiante no compromisso e na sensibilidade de empresas públicas e privadas com os temas da História, da Cultura, do Meio Ambiente e da preservação do Conjunto Moderno da Pampulha como Patrimônio Mundial.

Além disso, a empresa ou instituição patrocinadora poderá deduzir 100% (cem por cento) do valor investido no Imposto de Renda a pagar, conforme determina a Lei Rouanet; e contará ainda com um amplo retorno institucional e de mídia durante as obras de requalificação, a serem realizadas em meio a uma programação cultural pulsante a partir de 2027.

Para conhecer o projeto incentivado pela Lei Rouanet e os benefícios que sua marca recebe ao ser associada, entre em contato com nossa equipe pelo e-mail: strategia@terrazul.org.br

Iate Tênis Clube
Fundação Oscar Niemeyer
ICOMOS_BR
Unesco